sexta-feira, 6 de abril de 2012

É o país mais rico do mundo e tem meio planeta no carrinho de compras. Através do seu canal de televisão, a Al Jazeera, influencia milhões além-fronteiras. Começa, decide e termina guerras. Eis o Qatar, um estado com o tamanho do distrito de Beja.Nem todos se habituaram ainda ao nome e ao poder do Qatar, o pequeno emirado do Golfo Pérsico que por cá continua a ser mais conhecido por ter sido palco da fase final do mundial de futebol sub-20 de 1995, que Portugal terminou no terceiro lugar. Foi nesse ano que a sorte daquele pedaço de areia do tamanho do distrito de Beja começou a mudar. Mas já lá vamos.

Primeiro, a nota necessária: o sucesso recente do Qatar relaciona-se obviamente com o facto de a pequena nação ter ganho o euromilhões da geologia. Debaixo dos seus desertos e do seu mar escondiam-se as maiores reservas de gás natural do mundo. Estas foram descobertas na primeira metade do século XX, mas só após a Segunda Guerra Mundial a então incipiente indústria petrolífera catarense começou a dar os primeiros passos. Naquela altura, viviam na península apenas 16.000 pessoas, a maioria descendentes iletrados de beduínos nómadas, ali estabelecidos e governados há dois séculos pelo clã al-Thani.

O grande salto é dado com recurso a mão-de-obra importada. O Qatar acolhe hoje mais de milhão e meio de imigrantes atraídos pela promessa de fortuna. Segundo o Fundo Monetário Internacional, o emirado tem o maior valor mundial de riqueza per capita (102.891 dólares em 2011, contra os 23.204 de Portugal). O Qatar, portanto, foi construído por estrangeiros. E foi governado também a partir do estrangeiro. Por lá passaram persas, portugueses, otomanos e britânicos até à conquista da soberania em 1971. A declaração de independência foi lida num chalé suíço pelo emir Khalifa bin Hamad al-Thani, que ia cuidando dos assuntos de Estado nos intervalos da preenchida agenda social da Riviera francesa. Tudo muda em 1995 com a chegada ao poder do seu filho. Em Junho desse ano, Hamad Bin Khalifa al-Thani, formado na academia militar britânica de Sandhurst, telefona ao pai ausente a dizer que este já não manda no Qatar. O golpe é consumado sem derramamento de sangue.

Hamad, o primeiro emir do Qatar a tempo inteiro, é o responsável pela transformação de um minúsculo país bilionário, até então indistinguível do Kuwait ou dos Emirados Árabes Unidos, numa potência política, económica e cultural. Fê-lo por uma questão de sobrevivência. Encravado entre a Arábia Saudita e o mar, com o Irão do outro lado do Golfo, o Qatar sempre temeu ser anexado pelos seus populosos e poderosos vizinhos, e o receio aumentou após a invasão iraquiana do Kuwait em Agosto de 1990. Sem contar com um exército capaz, ao Qatar restaria a luta pela relevância internacional, que renderia alguma solidariedade em caso de necessidade.

A estratégia catarense divide-se em três frentes: financeira, comunicacional e política. A primeira está ganha, e não só através do gás natural. Uma parcela crescentemente significativa da economia global depende actualmente do apetite investidor do emirado. Através de um fundo soberano constituído em 2003, dirigido pelo primeiro-ministro e ministro dos Negócios Estrangeiros, Hamad bin Jassim bin Jaber al-Thani, primo do emir, Doha detém participações em empresas-chave de quase 40 países, incluindo Portugal. Volkswagen, Porsche, Iberdrola e Barclays são apenas alguns dos gigantes nas mãos do Qatar. O capital catarense encontra-se distribuído por diferentes indústrias, da eléctrica à turística, da banca à distribuição alimentar. E não parece haver grande critério geográfico ou político, já que a Síria pária ou a Cuba comunista também captam investimento de Doha.

Há também uma grande aposta no sector agrícola. O Qatar detém ou negoceia a compra de extensos lotes de terreno em países como a Austrália, a Argentina e a África do Sul. A este investimento não será alheia a intenção de Doha promover um tratado internacional de segurança alimentar que, segundo o El País, resultará na constituição da «NATO contra a fome». Quem preside à missão é o ex-ministro espanhol dos Negócios Estrangeiros Miguel Ángel Moratinos, que se mudou de armas e bagagens para o Qatar.

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